O goleiro psicólogo e os equatorianos de Porto Alegre
Cevallos ensinou como se pega pênalti. Defendeu três e acabou com o sonho de Renato Portaluppi e de toda a torcida do Fluminense.
Cevallos ensinou seus colegas de posição como se faz. Tirou a concentração dos batedores. Aí está o segredo.
Essa de ir para o fundo da goleira, ficar de cócoras, de costas para o campo enquanto o cobrador se prepara para bater, é um lance genial. Depois, ele se levanta lentamente, gesticula como se falasse com algum ser invisível.
Só esse teatro já invade a mente do cobrador. ‘Que diabos está fazendo esse cara?’, deve se perguntar o batedor, desviando o foco do principal, a cobrança do pênalti, o ato de bater na bola e mandá-la para a rede.
Mas Cevallos ainda fez mais. Ficou inquieto sobre a risca, um passinho pra cá, outro pra lá. Inverteu a lógica da cobrança: de vítima a ser executada pelo carrasco, passou a ser ele o algoz.
A movimentação do goleiro e seu gestual me lembraram do Zetti, que ficava sob a trave erguendo os braços como se fosse alçar vôo. Uma tentativa de desconcentrar o cobrador.
Cevallos, porém, fez mais, um mestre a ser imitado. Se eu ali, sentado no sofá, sem a pressão de 90 mil pares de olhos sobre mim, já fiquei irritado, imagine o que se passou na cabeça dos jogadores do Fluminense naquele momento.
Na comparação: o Fernando Henrique parado, uma ovelha esperando ser abatida pelos equatorianos. Igual a maioria dos goleiros. Cheguei a pensar FH poderia em determinado momento inventar algo parecido, mas ele ficou parado, sem ação. Bom para os adversários, seus carrascos, que o executaram sem dó nem piedade.
Como se não bastasse, Cevallos acrescentou mais uma encenação quando o nome do jogo até ali, Thiago Neves, foi bater. Ele liquidou com o jogador do Flu ao sair da goleira para falar com o árbitro justamente quando Thiago já ameaçava correr para a bola. Ali, ele tirou de vez, ou de vereda, a concentração do craque do jogo.
Um registro: se eu tivesse que responsabilizar alguém pela ‘derrota’ do Flu, seria o Washington. Um matador como ele não pode perder os gols que perdeu. Um lá em Quito no começo do jogo, outro no Maracanã. Gols que até o Herrera (fase grêmio) marcaria.
Já o Renato, embora tivesse falado demais antes da partida, defeito que precisa corrigir, provou que é um grande treinador. Ele só não contava que havia um Cevallos no meio do caminho. Fosse qualquer outro goleiro, acredito que o Flu seria campeão da Libertadores.
Por último, o que tem de equatoriano em Porto Alegre!. Nas ruas e nas redações de esporte.
Escrito por Ilgo Wink às 10h56
[]
[envie esta mensagem]
|