Especialista em ser assaltado
Estou me tornando um especialista em ser assaltado. Depois de quase um século de virgindade, sentindo até uma pontinha de inveja daqueles que me relatavam suas desventuras com os criminosos que nos saqueiam nas ruas assim como determinadas ONGs avançam insaciáveis sobre o dinheiro público, estou me especializando em ser roubado.
Três meses atrás, foi assaltado. Levaram meu carro num final de tarde de domingo. A cidade, como sempre, à mercê dos marginais, muitos deles do regime semi-aberto, gente que não perde nada se matar alguém.
Dois ou três anos de cadeia e estão na rua de novo.
Hoje, 23 de abril, o assalto foi às 11h30. Na verdade, escapei por pouco, por sorte.
Estacionei meu carro (comprei outro há um mês com o dinheiro do seguro) em frente ao prédio onde moro, no bairro Santa Cecília. Como sempre faço, observei a movimentação nas calçadas. Nada suspeito. Parei e fiquei catando uns CDs no porta-luvas em vez de sair logo e entrar no edifício.
Vacilei ao ficar dois minutos a mais dentro do carro, numa rua movimentada.
Quando abro a porta para sair vejo um cara alto, moletom cinza, tênis, uns 25 anos de idade.
'Esse cara é assaltante e ele vai me assaltar', pensei. A exemplo do que aconteceu na primeira vez, eu estava certo. Essa mania de prever e acertar só não dá certo na Mega Sena, na Quina, etc. Nem em par ou ímpar.
Só que aí apareceu o Adão, o zelador do meu edifício. Ele chegou próximo da grade para pegar a correspondência. O sujeito olhou pra ele, olhou pra mim, e seguiu em frente.
Tranquei o carro (não tem alarme) e abri o portão do prédio dizendo pro Adão: "Cara, tu acabou de me salvar. O sujeito que passou aí na frente ia me assaltar".
O Adão não havia percebido nada. Mas enquanto eu falava com ele, o cara voltou, fingindo que falava ao celular. "É esse aí, Adão', apontei. Ele não levou muita fé em mim, mas ficou de olho.
Subi pro meu apartamento, que fica no primeiro andar, fundos. Costumo entrar devagar, porque se for muito ligeiro saio pela janela de tão pequeno que ele é. Cinco minutos toca a campainha. É o Adão: "Ilgo, deixe comigo. O cara tá parado mais adiante, acho que ele vai tentar roubar algum carro na rua".
- Então, vamos chamar a polícia. Vai descendo que eu vou em seguida -, disse, desligando o computador.
Quando cheguei lá embaixo, o Adão se aproximava da grade. Nisso, ele gritou: 'O cara tá dentro do carro, do teu carro'.
Eu corri pra ver enquanto o Adão gritava para afugentar o ladrão. Fiz coro com ele. O ladrão se assustou, saiu do meu carro e correu, enquanto eu abria o portão.
Ele vestia, agora, uma camisa vermelha (havia tirado o moletom). Logo adiante entrou num Palio branco e se mandou. Havia um outro sujeito na direção. Um vizinho anotou o placa, que passei para o 190. Dez minutos depois, chegou uma patrulha.
Meu prejuízo: a fechadura da porta estourada. Mais a obrigação de colocar um alarme e um insufilme.
Estou pensando em imitar uma senhora que vi outro dia dirigindo um carrão. Ela tinha ao lado um boneco com vestimenta de militar. Quem sabe compro um boneco com a cara do capitão aquele do Tropa de Elite?
Já estou pensando em comprar uma pistola. Fazer um curso de tiro. Se der, compro uma metralhadora de tanto bandido que tem por aí. Muito mais que brigadianos. Muito mais mesmo.
Mas uma coisa é certa: minha especialização em ser alvo dos bandidos me traz alguns ensinamentos:
- os bandidos também podem estar dentro de um carro, à espreita. Não apenas caminhando pelas calçadas.
- nunca ficar dentro do carro por mais de 30 segundos. Nunca.
- nunca embicar o carro numa garagem (foi isso que fiz na outra vez), porque o ladrão sabe que o sujeito que deixa o carro assim vai sair a qualquer momento. Foi o que aconteceu comigo.
Bem, vamos ver o que vou aprender na próxima vez.
Escrito por Ilgo Wink às 22h56
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