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A Ilha, Cuba Libre e os nossos sonhos

 

 

 

Quando li ‘A ilha’, em 1976, eu usava barba, uma barba com falhas, desgrenhada, cabelos compridos, normalmente desalinhados. Era 'pele e osso simplesmente, quase sem recheio...', como cantava Chico Buarque.

 

Sonhava com uma reforma agrária pra valer. Era inspirado por ele, Leonel Brizola, que havia realizado alguns projetos nessa área, um até hoje persiste (Reserva do Banhado), sem armas, nem invasões violentas.

 

Lia livros sobre reforma agrária e via nela a única solução para o Brasil. Na faculdade, meus trabalhos eram nessa linha (principalmente na cadeira de sociologia, do primeiro semestre).

 

Houvesse outra resistência naquele momento à ditadura, talvez eu estava determinado a aderir (quem sabe empunhasse armas ao lado do Zé Dirceu, se é que um dia ele fez isso mesmo, e seqüestrasse um cônsul americano).

 

Eu era um revolucionário, queria mudar o mundo, o que fazia quase todas as noites em botecos imundos, com muita conversa regada a cerveja nem sempre gelada. Sim, bebia Cuba Libre, uma mistura de coca com rum, que a gente, por falta de dinheiro, substituía por cachaça. Sem gelo.

 

Foi nesse período que li ‘A Ilha’, do Fernando Morais. Confesso que não me lembro mais de grande parte do seu conteúdo, mas fiquei maravilhado.

 

Queria conhecer Cuba de qualquer jeito. Até estudei russo durante um ano. Tenho o livro básico até hoje. Não aprendi o idioma, muito difícil.

 

Nem conheci Cuba.

 

Mais um dos meus tantos sonhos frustrados. Há uma pilha deles.

 

Anos mais tarde, descobri que boa parte do estava escrito no livro era ficção. As atrocidades do regime comunista de Fidel (tem gente escrevendo que ele tinha uma democracia ao seu estilo) vieram à tona. Prisões e assassinatos de gente contrária ao governo se sucediam. Cubanos que tentavam deixar o país maravilhoso descrito em ‘A Ilha’ em botes improvisados eram mortos. Mas só depois de um julgamento rápido e ‘justo’.

 

Liberdade. Não havia liberdade pra nada, a não ser pra apoiar ‘livremente’ a ditadura imposta por Fidel Castro e seus companheiros.

 

Quando casei ainda usava a mesma barba, o mesmo cabelo, mas metido num terno azul-marinho. Antes de entrar na igreja, bebi uma Cuba Libre, com uísque Drury’s no lugar da cachaça. Tempos depois, aparei o cabelo, raspei a barba. E assim fiquei. 

 

Hoje, vou vou beber uma Cuba Libre, com rum, e brindar a ele, Fidel Castro, porque eu tenho certeza de que naqueles anos 50, ele realmente tinha o ideal de criar uma sociedade melhor e mais justa.

 

Fracassou, não desistiu, e deixou seu povo sofrendo durante décadas. De revolucionário, defensor do povo, passou a ditador cruel e sanguinário.  Beberei também a isso, à sua aposentadoria.

 

Fidel já vai tarde. Muito tarde.

 

O mundo que ele imaginou um dia não existe, nem nunca existirá.

 

Mas ninguém está impedido de sonhar, principalmente quando se tem 18 anos, ou quando se ouve a canção de John Lennon:

 

Imagine que não exista nenhum paraíso,
É fácil se você tentar.
Nenhum inferno abaixo de nós,
Sobre nós apenas o firmamento.
Imagine todas as pessoas
Vivendo pelo hoje...

Imagine que não exista nenhum país,
Não é difícil de fazer.
Nada porque matar ou porque morrer,
Nenhuma religião também.
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz...

Imagine nenhuma propriedade,
Eu me pergunto se você consegue.
Nenhuma necessidade de ganância ou fome,
Uma fraternidade de homens.
Imagine todas as pessoas
Compartilhando o mundo todo.

Você talvez diga que sou um sonhador,
Mas eu não o único.
Eu espero que algum dia você junte-se a nós,
E o mundo viverá como um único.



Escrito por Ilgo Wink às 10h06
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