Um assalto muito especial e o sorriso da Débora
Amanheci mais contente que os 11.500 agentes públicos portadores do cartão corporativo (gastaram R$ 75 milhões no passado, sendo que R$ 58 milhões em saques, dinheiro, money) e que o técnico Abel Braga com a volta do Guiñazu, hoje o jogador mais importante do Inter.
Estou feliz pelo simples fato de estar vivo.
Está certo, pode ser pouco, mas se a gente pensar bem, já é uma grande coisa. Depois de escrever sobre a morte nos últimos dias – seria um aviso, uma preparação? – me deparei com a dita cuja.
Ela não estava vestida de preto, com uma foice nas mãos, imagem que tem passado através do tempo.
Foi neste domingo, por volta das 18h30, logo depois do massacre do Inter em Pelotas.
A morte trajava uma roupa esporte. Era um jovem, de 1 metro e 80 e poucos, cabelos curtos, meio amarelados, parecendo tingidos. Cara de alemão, polaco ou gringo da Serra.
Eu saia de casa para entrar no carro. A rua estava deserta, com exceção desse sujeito que descia a rua correndo, e se aproximava de mim. Olhei de relance e senti que ele fugia. Segui caminhando, passei pelo carro, esperando que ele seguisse em frente, mas pressentindo que ele iria parar para me assaltar.
Pensado e feito. O que é força do pensamento. Eu senti que ele parou e, sem olhar pra trás, ensaiei uma corrida corajosa. Aí, ele gritou:
- Não corre que é um assalto.
Parei, que não estou aí pra levar tiro pelas costas. Já me bastava entrar para a estatística das vítimas de roubo de carro.
(Só neste domingo, dia 10, foram 100 em todo o Estado, a maioria na Capital).
Então, para não figurar também na lista dos homicídios, estaquei e me virei.
Pensei: ‘Está acontecendo comigo mesmo, é verdade! Por que ele não me deixa correr e ir embora? Pega a chave e me esquece’.
Fiquei calmo. Lembrei da ministra petista, aquela do relaxa e goza.
A rua continuava deserta. Me sentia personagem de um duelo do velho oeste. Só faltava a música de Enio Morriconne, aquela da gaitinha de boca na abertura do filme Era um vez no Oeste (recomendo com entusiasmo). Em vez da rua empoeirada para completar o cenário, a modernidade do asfalto quente.
Mas não era o filme do Sergio Leone. Nem eu era o Charles Bronson descendo do trem para liquidar com os bandoleiros de tocaia.
Era a droga de uma realidade que eu jamais havia enfrentado em mais de 30 anos vivendo em Porto Alegre.
O ‘alemão’ me olhava, mão esquerda estendida, sinalizando que eu não deveria me aproximar (nunca me passou pela cabeça me aproximar), e a direita segurando alguma coisa sob a camiseta folgada.
Ele poderia sacar a qualquer momento. Eu só tinha a chave do carro para sacar. Um duelo desigual.
- Toma, pega a chave e vai tranqüilo, eu não tenho arma, falei, enquanto jogava a chave pra ele pegar.
Ele não esboçou nenhum gesto. Senti que ele estava nervoso, até mais que eu. Ofegante, exigiu:
- O alarme, pega a chave e desliga o alarme.
Estávamos a uns cinco metros de distância um do outro. Me aproximei para pegar a chave no chão enquanto dizia que o carro não tinha alarme.
Entreguei a chave pra ele, que continuava ameaçando pegar o que eu imaginava ser um revólver. Por instantes, pensei que ele estava desarmado e que eu poderia sair correndo. Mas e ele estivesse armado?
Na dúvida, fiquei, até porque achava que tinha a situação sob controle. Ao mesmo tempo, lembrei de quantas pessoas são assassinadas mesmo sem reagir, por pura maldade. Ele poderia sacar a arma e me matar, ali no meio da Rua Castro Alves, que continuava deserta. Só o nosso diálogo rompia o silêncio.
Ele se aproximou. Eu estava quase encostado no carro, junto à porta do motorista. Nisso, ouço o ruído de um carro se aproximando às minhas costas, e de frente pra ele.
Ele chega mais perto e fala alguma coisa com a palavra ‘polícia’ no meio. Pensei que pudesse ser um carro da polícia se aproximando e que era para eu manter a calma, não chamar a atenção. Mas era um carro cor de laranja, ou vermelho, poderia ser um táxi, até hoje não sei.
Meus olhos estavam fixos na cintura do assaltante, onde agora eu podia ver uma pistola, de cor escura. Ele sacou a arma e ordenou:
- Levanta a camisa, quero ver se tu não é polícia.
Obedeci calmamente. Com a pistola na mão, ele abriu o carro.
- Se afasta, vai pra calçada. Eu só quero o carro pra fugir, só pra fugir.
Me afastei devagar. Ele mexeu no painel e descobriu o dispositivo que desliga o carro (acho que em meio ao diálogo eu havia informado isso pra ele, não sei).
Eu estava na calçada, parado, quando ele ainda gritou:
- Por favor, não telefona pra polícia, eu só quero o carro pra fugir.
Eu respondi que não tinha telefone (imaginava que meu celular estivesse dentro do carro, mas estava no meu bolso).
Ainda tive tempo de abanar enquanto ele manobrava.
Uma vizinha, então, apareceu na janela:
- Oi, isso foi um assalto?
Não, decididamente não era um filme do Sérgio Leone.
Foi um domingo especial.
Não ganhei um sorriso da Débora Secco, menos ainda um cartão corporativo.
Ganhei muito mais.
Escrito por Ilgo Wink às 11h32
[]
[envie esta mensagem]
|