Um raio de sol iluminou Mano Menezes
Não vi o primeiro gol do Grêmio. O gol de Tuta. Pelo rádio, ouvi narradores derramarem-se em elogios ao gol de Tuta, golaço gritavam eles, estourando os pulmões.
Era só o que me faltava, pensei, um golaço do Tuta. Agora mesmo é que ele não sai mais do time. O torcedor, passional, vibra, não pensa que uma alegria momentânea pode gerar dezenas de decepções mais adiante.
Jogador ruim não pode marcar gol, menos ainda golaço. Ele fica no time, renova contrato, enfim, é uma droga.
Logo tudo ficou esclarecido: Tuta havia tentado o cruzamento e acabou encobrindo o goleiro. Menos mal, respirei aliviado.
Enquanto isso, o Marcel desperdiçava duas jogadas de gol. Minha tese ia por água abaixo, como uma descarga de vaso sanitário aberta a pleno afundando petistas, e tutistas.
O narrador Marco Antônio, que é muito bom, gritava ‘Tuta está tutando’. Elogiava o Tuta de uma maneira exagerada. Fiquei só ouvindo o Haroldo, na Guaíba, que pelo menos não me largava essa de tutando. Demais para os meus ouvidos tão doloridos de ouvir discursos do presidente.
Veio o gol do Marcel. Alívio. Ainda há uma esperança, pensei.
No segundo tempo, Jonas no aquecimento. Os narradores, comentaristas e repórteres, o estádio inteiro, previam: vai sair o Marcel. Afinal, pensavam e diziam, o Tuta está bem hoje.
O Chico Izidro, de noite, na redação, jurou: o Tuta jogou tribem. Só se foi em relação a ele mesmo, porque pra mim jogou razoavelmente apenas, retruquei irritado.
Defender o Tuta na minha frente é demais.
Então, na tarde nublada de Porto Alegre, pingos de chuva sobre o estádio, uma luz brilhou, iluminando a cabeça quase careca do Mano Menezes.
Ele sacou Tuta. Ooooooh, fizeram os colegas nas cabines de rádio e boa parte do público.
Ooooooh, fiz eu, diante da TV. O Mano, enfim, acordou, descobriu aquilo que venho repetindo há dois meses: o ataque deve ser Jonas e Marcel.
Pois o gol da vitória foi de Marcel. E que gol, um gol que Tuta jamais faria, porque não tem arranque, explosão, velocidade, não consegue se antecipar à zaga. Enfim, é um cidadão, não um atleta.
Tuta está caindo. Agora só falta o presidente.
COPA DO MUNDO
Por falar em presidente: o primeiro trenzinho da alegria relativo ao Mundial já está na Europa. O presidente e um grupo de governadores estão lá em Zurique para apoiar a Copa aqui no Brasil. Eles e mais um monte de gente. Só falta o principal: Pelé.
Festa e festa só para saber o que todos já sabem: a Copa será aqui. Vão se refestelar com a grana que vai girar até lá, mais ainda do que já fizeram no Pan.
Se eu já não tivesse motivos para repudiar a Copa aqui neste país em que os governos nunca conseguiram assegurar ensino e saúde, coisas básicas e essenciais, teria esse: o presidente e os seus querem porque querem a Copa aqui.
Mesmo que já não seja no atual mandato.
E aí é que eu me apavoro: se o presidente quer a Copa de 2014, é porque ele tem certeza de que continuará no poder até lá, se não ele diretamente, um preposto.
Foi com esse pensamento maligno que fui dormir e acordei nesta segunda-feira cinzenta.
Escrito por Ilgo Wink às 07h26
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