No belo filme Em algum lugar do Passado, o personagem principal, interpretado por Christopher Reeve, consegue voltar ao passado para reencontrar um amor que tivera em outra vida. Para isso, ele se hospeda num hotel antigo, onde teria conhecido a mulher (Jane Seymour), usa vestuário do passado, se tranca num quarto, que seria o mesmo da outra vida. E se concentra por dias e dias, até acordar na vida anterior. Tudo isso com um trilha sonora sensacional (do John Barry).
Pois eu não precisei nada disso para recuar uns 25 anos no tempo. Bastaram alguns minutos, sábado, no estádio Olímpico, na parte das arquibancadas inferiores, onde havia pisado pela última vez nos anos 70, recém chegado de Lajeado.
Grêmio e Palmeiras já estavam em campo quando entramos no estádio, eu e meu filho Matheus.
Havia muita gente no estádio, mais de 20 mil pessoas. Paguei 30 reais pelo ingresso, caro. Muito caro se considerarmos que fiquei todo tempo em pé. Ninguém mais fica sentado nas arquibancadas.
Foi aí que comecei a voltar no tempo.
Não havia cobertura na parte onde fiquei. O anel superior ainda estava incompleto quando comecei a assistir aos primeiros jogos do Grêmio. Então, a gente ficava ali sob o sol e a chuva. Mas sentados. Levantar só para xingar o juiz e a família dele, vaiar o adversário ou o próprio time gremista.
Na verdade, nunca fui daqueles torcedores oba-oba. Sempre fui crítico. Do tipo corneteiro, metido a saber mais que o treinador.
Acho que fiquei assim porque eram os anos de chumbo. Não, os anos da ditadura, que estava moribunda. Mas do chumbo que o Inter disparava no Grêmio ano após ano.
Sim, sou filho dos anos de derrotas do Grêmio, de vitórias do Inter. Vi o Inter ser um inacreditável octacampeão gaúcho (oito ano seguidos, para deixar bem claro, porque parece um absurdo nos tempos atuais) e, pior, ser bicampeão brasileiro com Falcão, Figueroa, Carpegiani, etc.
Vi o Escurinho destruir meus sonhos de vencer um Gre-Nal em domingos ensolarados, ou chuvosos, nos minutos finais dos clássicos.
Não vi o Gre-Nal que o Zequinha fez três gols (3 a 1, no Beira-Rio, em 1975). Na hora de uma rara alegria, eu estava fora de Porto Alegre.
Pé-frio? Não sei, mas amargo sim. Acho que fiquei muito amargo, descrente, sarcástico, desconfiado. Acho que esse período foi importante na formação da minha personalidade.
Em campo, me via no Iúra. Símbolo da resistência diante de um Inter imbatível, que, apesar de superior, nunca conseguiu nos golear.
Meu consolo para tanto sofrimento no futebol. Um consolo como esse que foi ver o Luís Inácio ser vaiado no Pan.
Então, como o Iúra, que não se entregava nunca, eu também não me entreguei. E vi o Grêmio evitar o nono título seguido do Inter.
Depois, já como profissional da imprensa (título de sócio contribuinte cancelado em função disso), vi o Grêmio ser campeão brasileiro em 1981. Até dei uma modesta contribuição para que isso ocorresse, mas é outra história, que contarei um dia mediante pedidos insistentes e numerosos.
Voltei a 2007 quando vi o Patrício cruzando uma bola perfeita para o Ramón fazer 1 a 0. Não vibrei.
Curti aquele momento: milhares de pessoas festejando, a maioria jovens. Nem a presença de um vendedor oferecendo doses de um tal Conhaque do Faustão, foi suficiente para impedir que eu me desse conta de como é bonito o Olímpico.
Melhor que a maioria dos estádios que conheço. Será que vale a pena destruir o Olímpico e construir outro estádio, principalmente utilizando um dinheiro que vem de outros e que pode sair muito caro?
Era eu de volta para o futuro, sempre crítico, desconfiado, menos amargo, porque de lá para cá fui campeão várias vezes.
Mas não adianta, aquele início, aquele aprendizado nas arquibancadas do Olímpico nos anos 70 ficaram marcados a ferro e fogo.
Apesar disso, foi um tempo bom. Um tempo de sonhos juvenis e de esperança.
Um tempo que ficou em algum lugar do passado.