A secação colorada e o Karmann Ghia da Uma
Final da tarde de domingo. Cumpro uma rotina de duas décadas. Entro no prédio número 219 da Rua Caldas Júnior. Costumo subir a escada, mas optei pelo elevador, uma relíquia em termos de transporte vertical.
Se fosse um carro antigo, seria o Karmann Ghia, de tão bonito. Sou louco por Karmann Ghia, o primeiro modelo. Eu e a estonteante Uma Thurmann, que dirige um (conversível) no Kill Bill 2.
Entro na redação. Um colorado me perguntou, aparentando uma certa angústia: "Quanto foi a Ulbra hoje?". A Ulbra joga daqui a pouco, respondi, de mau-humor. Trabalhar domingo à noite deixa qualquer um de mau-humor, pelo menos antes de esquentar o motor.
Mais tarde, Ulbra e Novo Hamburgo em andamento. Percebo os colorados da redação preocupados. A toda hora querem saber o resultado. O Rafael Peruzzo está acompanhando, fone no ouvido. Segundo tempo, a Ulbra está vencendo por 2 a 1.
Os colorados torcem pela Ulbra. Secam o Novo Hamburgo. Vencendo, a Ulbra se distancia no segundo lugar e impede o avanço do NH, inimigo direto do Inter na luta pelo terceiro lugar no grupo 1 do Gauchão.
O Chico Izidro, gremistão, sorri. Olha pra mim e fala alto (o Chico sempre fala alto) para provocar os colorados: "Quem diria, os campeões do mundo secando o Novo Hamburgo com medo de serem eliminados do Gauchão. Quem diria...".
Por todo o canto, resmungos de colorados e risadas de gremistas.
O Peruzzo, que é um paranaense que adotou o Grêmio como seu clube aqui, anuncia, lembrando o pai dos plantonistas esportivos do país, o Antônio Augusto: "Tem gol".
Gremistas e colorados espicham o pescoço, arregalam os olhos. "É do Novo Hamburgo", informa o Peruzzo, sem conseguir conter um leve sorriso. O empate já não é tão bom para o Inter. Além disso, havia o risco de uma virada. Se o NH vencesse, ficaria à frente do Inter.
Aos 48 do segundo tempo, gol da Ulbra. Os colorados vibram, discretamente, para não pagar o vale de vibrar com gol da Ulbra. Logo a Ulbra, que bateu o Inter há poucos dias.
Em seguida, flagro dois colorados conversando, com a tabela de classificação à mão. "Se não acontecer um crime em Vacaria, a gente se classifica", comenta um deles, com medo do Glória.
É, o futebol é dinâmico mesmo.
Final de jogo, o Inter é terceiro no grupo. Sábado, conseguiu uma grande vitória sobre o Juventude. Fiquei impressionado com o time do Ju. É forte, tem bons jogadores. Gostei muito do lateral-direito, o Michel. Antes, achava que o título ficaria com Grêmio ou Inter. Hoje, já coloco o Ju no páreo.
Gostei também do Vargas. Um volante de pegada e muita técnica. Arrumou o meio-campo colorado. O Ji-Paraná também mostrou bom futebol.
Ontem, o Grêmio bateu o Caxias, no Centenário, jogando com time misto. No Gauchão é um tigre, na Libertadores, um gatinho.
Apesar de sua excelente campanha, não aponto o Grêmio como favorito ao título, porque a decisão será em dois confrontos: ou contra o Inter, ou contra o Juventude.
E aí tudo pode acontecer, menos a Uma parar aqui na frente da redação com um Karmann Ghia conversível, louquinha pra me dar carona. No mais, tudo pode acontecer.

Escrito por Ilgo Wink às 21h30
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