Aniversário no Dia da Mulher e a poesia de Quintana
‘Parabéns pra você, nesta data querida...”. É o que eu ouvi quando tirei o telefone do gancho, sonolento. Eram 7 e 30 e alguém já estava ligando para me desejar feliz aniversário, muita saúde, dinheiro, felicidade, amor, etc.
Fui dormir tarde, ontem, dia 7. O jogo do Grêmio, vitória de 2 a 0 sobre o 15 de Novembro terminou perto da meia-noite.
Então, seria impossível acordar tão cedo e ainda estar bem-humorado. Me esforcei e agradeci pela lembrança. Ainda consegui elogiar a minha despertadora (sim, era uma mulher. Ou vocês pensam que homem liga pra homem pra desejar feliz aniversário num horário tão inconveniente, e ainda por cima cantando?).
Disse (juro, ainda não descobri quem foi) que ela tinha uma voz muito boa, cantava afinado e que teria boas chances de vitória no Ídolos, aquele programa que o canal do Silvio Santos lançou para tentar descobrir novos ídolos.Cheguei a pensar em sugerir que ela fosse cantar na Discoteca do Chacrinha, mas me dei conta que estamos no século 21.
Tudo isso não durou mais que três ou quatro minutos. Sobrevivi e agora, bem acordado, estou em pleno dia do meu aniversário. Já recebi outros telefonemas. Gente amiga que passa energia positiva para continuar em frente nessa caminhada. Nesse já tão longo andar, como diria o Mário Quintana.
Quintana. Quando entrei no Correio do Povo cheguei a conviver algum tempo com ele. Quer dizer, conviver não é bem o termo. Eu chegava no final do dia e ele estava saindo.
Mal o poeta deixava a redação, eu pulava para a sua máquina Olivetti. Acho que eu pensava em captar a magia que poderia ter ficado ali naquelas teclas desgastadas.
Sempre que deparo com algumas pessoas ou situações desagradáveis, lembro mentalmente do poeminha que é um poemão:
‘Todos esses que aí estão
atravancando o meu caminho
Eles passarão
Eu passarinho”.
Sabe que funciona? Os obstáculos se diluem magicamente. Certa vez, numa matéria que escrevia para a Folha da Manhã, onde estagiei, perguntei ao Mário Quintana, timidamente, como ele definia a poesia. Ele olhou aquele guri magrinho, barbudo e cabeludo (todos os estudantes da Fabico eram assim naquele tempo, ou quase todos).
Fiquei sem jeito. Parecia que eu havia feito uma pergunta boba, mas era a minha pauta, pô!
Quintana tinha um olhar sereno, carinhoso, mas firme. Um jeito suave de falar, como o canto de um canário da terra. Compreensivo, respondeu:
“Meu filho, poesia não se define, não se ensina. A poesia está dentro de nós”.
A resposta foi um pouco frustrante, porque eu mais ou menos pensava assim. Parecia muito óbvia.
Depois, ao longo dos anos, percebi que poucos são os que levam a poesia consigo e como o mundo seria melhor com mais poesia. Na simplicidade da resposta, a sabedoria de Quintana, que escreveu versos simples, porque a vida é simples. Tão simples que passamos o tempo todo querendo complicá-la.
De uns tempos para cá, procuro simplificar as coisas.
Um exemplo: até ontem eu estava escrevendo a coluna De Primeira no CP, nas férias do Hiltor. Lá pelas tantas, cansado de tanto ler ofensas de torcedores me chamando de gremista ou colorado filho disso e daquilo, decidi facilitar, simplificar. Escrevi que sou gremista. E daí? Quando escrevo sobre futebol, ou seja, no exercício da minha profissão, procuro ser isento e honesto nas minhas análises. Pronto, neutralizei um problema, algo que estava me irritando.
Outra coisa que me irrita: o Lula e seu (des) governo. Evito ler e ouvir o que ele diz. Não me interessa.
Melhor mudar de assunto, porque isso é algo que me irrita muito, muito mais do que ser acordado de madrugada com um ‘parabéns a você’.
Melhor volta à poesia e celebrar a vida, que, como cantou Gonzaguinha, “é bonita e é bonita”.
Ah, parabéns a todas as mulheres. Sou um cara de sorte por fazer aniversário no dia delas, que são a melhor poesia da vida.
Escrito por Ilgo Wink às 10h10
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