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O filho do presidente e a volta dos que não foram

A foto na contracapa do CP desta sexta-feira, início de feriadão para muitos, mostra o atacante Martin vibrando com seu gol. Era o ‘filhinho de papai’, o ‘filho do ex-presidente Fernando Carvalho’, marcando seu primeiro gol com a camisa do time profissional do Inter. O garoto dava sua resposta. Posso imaginar sua emoção.

 

Muito parecido com Rafael Sobis, conforme observou o colega Alfredo Possas, ontem, durante o jogo que marcou a primeira vitória colorada no Gauchão. Tão parecido que até o seu gol lembrou muito o gol que começou a revelar Sobis no Inter, também um arremate poderoso de fora da área.

 

Vibrei com Martin, garoto que conheci há uns seis anos, quando fiz uma série de matérias para o CP para mostrar que os jovens das classes média já viam o futebol como uma profissão como qualquer outra de mais status social. Martin tinha uns 15 anos e ainda estava muito inseguro, sem saber se seguiria como jogador ou buscaria a advocacia como seu pai.

 

Ele me contou que ia aos treinos levado por um motorista da família e que costumava dar suas chuteiras usadas (pouco usadas) para os colegas pobres (a maioria do grupo, que tinha entre outros os gêmeos Diego e Diogo).

 

Então, o menino rico está começando a vencer como jogador profissional de futebol. Espero que a semelhança com Sobis não seja apenas no visual ou na pequena amostra da vitória sobre o Glória, no Beira-Rio.

 

A propósito, o gremista Telmo Flor, chefe de redação, brincou após os 2 a 1: “Pessoal, temos que mandar uma equipe para cobrir a festa dos colorados na Goethe. Acho que vamos fazer um caderno especial”.

 

Os colorados da redação não gostaram muito da brincadeira, mas não reagiram. Afinal, chefe é chefe.

 

ELES VOLTARAM

 

Mas, infelizmente, os jornais e os sites estão mostrando hoje outro tipo de gente vibrando muito.

 

Sorridentes, mão direita erquida, olhos irradiando felicidade e um leve sorriso debochado no rosto, eles estão aí de novo. Maluf, Collor, Palocci, Genoíno e outros menos ou mais votados. (Em breve, teremos a volta de quem, na prática, não saiu: José Dirceu. Anotem, e me cobrem). Tudo gente fina, gente com ficha limpa. Gente que vai e volta com a maior cara-de-pau, rindo da nossa cara.

 

Aliás, um em cada sete deputados federais tem problemas com a Justiça. Justiça?

 

Eles são a cara deste Brasil da impunidade, nosso maior flagelo.

 

Como se não bastasse, ainda tenho que assistir ao Clodovil fazendo caras e bocas e ouvir a Manuela reclamando de ser rotulada de ‘musa’ do Congresso, como se ela tivesse sido eleita por suas idéias, não por seu rostinho bonito.

 

‘Não vim para desfilar, mas para fazer política’, disse a Manuela, depois de manifestar preocupação com a sua maquiagem. “Só queria tempo para fumar e encontrar o meu marido, mas não posso encontrá-lo agora, porque vou chorar e borrar a maquiagem”.

 

Este é o país das Manuelas, dos Maluf, dos Paloccis e, claro, delle.

 

Mas é também o país dos que ficam indignados, dos que não desistem e dos que não perdem a esperança.

 

Mas, aonde é que eles estão?



Escrito por Ilgo Wink às 12h17
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Festa na colônia: o paraíso existe

Depois de assistir ao belo Pequena Miss Sunshine, segui indiferente ao que se passa no Campeonato Gaúcho – cuido disso a partir desta quinta-feira, quando volto ao CP.

 

Inspirado pela família maluquinha do filme, que viajou uns mil quilômetros numa velha Kombi com embreagem danificada, peguei o carro, domingo, e me mandei para o interior do Interior do Estado.

 

Desde guri sou chegado a uma indiada, com todo o respeito aos índios. Quando saio em viagem, de preferência sem reservar hotel, gosto de sair do asfalto e tentar descobrir ‘aonde vai dar aquela estradinha ali’. Se tiver uma placa sinalizando que mais adiante tem uma cachoeira, então, lá vou eu. Só não vou mais porque não tenho um jipe.

 

Gosto de roteiros alternativos. Lembro que no meu estágio na Folha da Manhã, em meados dos anos 70, fui escalado para passar uma semana na Serra. Matéria de turismo. Não me limitei a descrever os pontos turísticos tradicionais. Convenci o motorista a percorrer o interior de Caxias, Bento e Garibaldi. Fomos ver de perto como viviam os colonos e que atrativos os turistas poderiam encontrar, além dos mais conhecidos (e batidos).

 

Foi legal, apesar das estradas ruins. Numa manhã, tomamos café com uma hospitaleira e numerosa família de italianos. Mesa farta, no porão da casa, ao lado de barris de vinho, salames pendurados no teto, queijos, potes de geléia. Tudo à nossa disposição. Inclusive o vinho, às 8 da manhã, entre um e outro gole de café. Bons tempos.

 

De volta para o futuro.

 

Fui parar em Mato Leitão, um pequeno município encravado entre Lajeado e Cruzeiro do Sul. Fui parar é modo de dizer, porque só passamos por Mato Leitão. Em um minuto se atravessa a cidade.

 

Mais cinco quilômetros de chão batido e chegamos a Arroio Bonito, um lugarejo com meia dúzia de casas e um grande ginásio, onde a comunidade local realiza suas festas aos sábados e domingos.

 

Era um encontro da família Henckes, tem a ver com a família da minha namorada. Bastaram alguns segundos para eu descobrir que era o único que não falava alemão entre mais de 300 pessoas. Os parentes dela me cumprimentavam (acho que era um cumprimento) em alemão. Eu me apressava em dizer que não entendia patavina do que era dito. Pronto, seguia-se um olhar pesaroso, como quem diz ‘coitado, não entende alemão’.

 

‘Pô, devia ter trazido o Chico Izidro’, pensei. Quem conhece o Chico (o festejado autor de... Bem vocês sabem) sabe que ele só não é alemão por acidente.

 

Depois de algumas cervejas – o pessoal da Cidade Baixa não consegue acompanhar a alemoada – eu já estava enturmado. Era ‘iá’ pra cá e pra lá. De vez em quando, percebia um grupo dialogando em alemão e olhando pra mim.

 

Lá pelas tantas, depois do churrasco, desconfiei que tinha pelo menos mais um sujeito que não entendia bulhufas de alemão. Era o cantor da bandinha Alegre Encontro, que começou a tocar às 11h, fez pausa no almoço, e seguiu a tarde toda. Guerreiros.

 

Eu estava louco pra ouvir alguma coisa em alemão, para lembrar os velhos tempos de guri em Lajeado. Mas nada. A bandinha era alemã, mas ele só cantava em português, embora tivesse cara de quem havia largado a enxada horas antes na lavoura de batata.

 

Fomos embora às 17h, e o cara ficou lá cantando canções de letras ingênuas, mas animadas. E o pessoal bebendo e dançando, em plena tarde de domingo (confira as fotos).

 

Na cozinha, um grupo de mulheres preparava pastéis e tortas de tudo que é tipo.

 

Enquanto isso, o Inter jogava perto dali, em Santa Cruz do Sul, perdia mais uma no Gauchão. O curioso é que ninguém ali, eu inclusive, estava ligado no jogo.

 

E, o mais importante, ninguém falava em PAC, em Lulla, em Yeda.

 

O paraíso existe.

 



Escrito por Ilgo Wink às 10h21
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