Festa na colônia: o paraíso existe
Depois de assistir ao belo Pequena Miss Sunshine, segui indiferente ao que se passa no Campeonato Gaúcho – cuido disso a partir desta quinta-feira, quando volto ao CP.
Inspirado pela família maluquinha do filme, que viajou uns mil quilômetros numa velha Kombi com embreagem danificada, peguei o carro, domingo, e me mandei para o interior do Interior do Estado.
Desde guri sou chegado a uma indiada, com todo o respeito aos índios. Quando saio em viagem, de preferência sem reservar hotel, gosto de sair do asfalto e tentar descobrir ‘aonde vai dar aquela estradinha ali’. Se tiver uma placa sinalizando que mais adiante tem uma cachoeira, então, lá vou eu. Só não vou mais porque não tenho um jipe.
Gosto de roteiros alternativos. Lembro que no meu estágio na Folha da Manhã, em meados dos anos 70, fui escalado para passar uma semana na Serra. Matéria de turismo. Não me limitei a descrever os pontos turísticos tradicionais. Convenci o motorista a percorrer o interior de Caxias, Bento e Garibaldi. Fomos ver de perto como viviam os colonos e que atrativos os turistas poderiam encontrar, além dos mais conhecidos (e batidos).
Foi legal, apesar das estradas ruins. Numa manhã, tomamos café com uma hospitaleira e numerosa família de italianos. Mesa farta, no porão da casa, ao lado de barris de vinho, salames pendurados no teto, queijos, potes de geléia. Tudo à nossa disposição. Inclusive o vinho, às 8 da manhã, entre um e outro gole de café. Bons tempos.
De volta para o futuro.
Fui parar em Mato Leitão, um pequeno município encravado entre Lajeado e Cruzeiro do Sul. Fui parar é modo de dizer, porque só passamos por Mato Leitão. Em um minuto se atravessa a cidade.
Mais cinco quilômetros de chão batido e chegamos a Arroio Bonito, um lugarejo com meia dúzia de casas e um grande ginásio, onde a comunidade local realiza suas festas aos sábados e domingos.
Era um encontro da família Henckes, tem a ver com a família da minha namorada. Bastaram alguns segundos para eu descobrir que era o único que não falava alemão entre mais de 300 pessoas. Os parentes dela me cumprimentavam (acho que era um cumprimento) em alemão. Eu me apressava em dizer que não entendia patavina do que era dito. Pronto, seguia-se um olhar pesaroso, como quem diz ‘coitado, não entende alemão’.
‘Pô, devia ter trazido o Chico Izidro’, pensei. Quem conhece o Chico (o festejado autor de... Bem vocês sabem) sabe que ele só não é alemão por acidente.
Depois de algumas cervejas – o pessoal da Cidade Baixa não consegue acompanhar a alemoada – eu já estava enturmado. Era ‘iá’ pra cá e pra lá. De vez em quando, percebia um grupo dialogando em alemão e olhando pra mim.
Lá pelas tantas, depois do churrasco, desconfiei que tinha pelo menos mais um sujeito que não entendia bulhufas de alemão. Era o cantor da bandinha Alegre Encontro, que começou a tocar às 11h, fez pausa no almoço, e seguiu a tarde toda. Guerreiros.
Eu estava louco pra ouvir alguma coisa em alemão, para lembrar os velhos tempos de guri em Lajeado. Mas nada. A bandinha era alemã, mas ele só cantava em português, embora tivesse cara de quem havia largado a enxada horas antes na lavoura de batata.
Fomos embora às 17h, e o cara ficou lá cantando canções de letras ingênuas, mas animadas. E o pessoal bebendo e dançando, em plena tarde de domingo (confira as fotos).
Na cozinha, um grupo de mulheres preparava pastéis e tortas de tudo que é tipo.
Enquanto isso, o Inter jogava perto dali, em Santa Cruz do Sul, perdia mais uma no Gauchão. O curioso é que ninguém ali, eu inclusive, estava ligado no jogo.
E, o mais importante, ninguém falava em PAC, em Lulla, em Yeda.
O paraíso existe.

Escrito por Ilgo Wink às 10h21
[]
[envie esta mensagem]
|