A sabedoria de Antônio Augusto e a Mega Sena
Fora do jogo não tem salvação. A frase é de Antônio Augusto, que praticamente criou a figura do plantão esportivo nas transmissões de futebol pelo rádio. “Tem gol”, dizia ele, do estúdio principal da rádio Guaíba.
A voz poderosa de Antônio Augusto ecoava unânime pelos estádios nos anos 70 e 80, quando a Guaíba dominava a audiência.
“Tem gol aonde, Antônio Augusto?”, perguntava o narrador, do estádio, na primeira pausa.
Quando o jogo terminava, lá vinha o plantonista (ele trabalhava sintoniza em meia dúzia de emissoras de rádio do país e até do exterior – não havia Internet para facilitar a vida):
“A bola parou”.
São jargões consagrados pelo velho “onça”, apelido que ganhou de alguns colegas por ter um gênio um pouco difícil. Metódico e organizado, Antônio Augusto foi também o “rei da estatística” no futebol. Sabia tudo sobre cada jogo, principalmente da Dupla Gre-Nal.
Era imbatível o Antônio Augusto, que deixou seguidores e que hoje pode ser ouvido, à noite, na rádio Pampa, onde escancara seu coração gremista.
Mas, como dizia, fora do jogo não tem salvação. Naqueles tempos de convívio agradável com Antônio Augusto, eu apenas achava graça nessa frase, mas não deixava de jogar e, claro, de trabalhar.
Neste sábado, 6 de janeiro de 2007, quando milhares de pessoas enfrentam longas horas na fila para apostar na Mega Sena, sonhando com os 40 milhões de reais acumulados, não posso deixar de lembrar do Antônio Augusto nos corredores da Caldas Júnior, sacudindo cartões da Loteria Esportiva (a Mega Sena daqueles tempos) na mão e sentenciando:
“Ilgo, fora do jogo não há salvação”.
E aí eu penso no Imposto de Renda, no IPVA, no IPTU e para onde vai o dinheiro dos impostos. Penso nos salários milionários que ajudo a bancar. Penso nas centenas de deputadores federais, nos mensalões, nas férias do Lulla, que parece estar sempre em férias entre um discurso vazio e outro, nos senadores, que ainda não descobri para o que servem. Penso na violência crescente, na impunidade, nos serviços precários de saúde, na educação.
Enfim, não vejo muitas saídas.
Lia no Pasquim, nos anos 70, uma frase sobre isso, não me lembro do autor: a única saída é o aeroporto internacional.
Hoje, com a crise na aviação (punição pelo que fizeram à Varig), não há saída nem nos aeroportos.
É, fora do jogo não há salvação.
Estou indo pra fila apostar na Mega Sena.
Escrito por Ilgo Wink às 10h35
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