Raul Carrion, Gullar e Lulla
Eu não pretendia mais falar no Lulla. Afinal, ele ganhou a eleição. Ele ganhou, eu perdi.
Mas hoje, no dia seguinte ao Natal, ao deparar com um , um singelo cartão de 'Feliz 2007' assinado pelo vereador Raul Carrion, do PCdoB, não consegui me conter.
Num lado, Carrion, eleito deputado estadual, dá aquela mensagem tradicional, finalizando com um "São os votos do amigo e companheiro de lutas".
Até aí tudo bem, embora não seja companheiro de lutas dele.
Viro o cartão: há uma ilustração com trabalhadores fazendo uma baita força (todos com cara de boliviano), olhares cansados, tristes.
Ao lado, e aí é que me revolto, um poema do Ferreira Gullar. Eu gosto do Gullar, um grande poeta. Confiram seu site que vale a pena.
E aí me perguntei (já disse, gosto de fazer perguntas pra mim): como é que um sujeito que apoiou o Lula todo o tempo tem a cara de pau de usar um poema do Gullar, que a partir da descoberta do mensalão, passou a atacar Lulla e o PT?
Ele deveria pegar o texto de alguém como o Luís Fernando Veríssimo, por exemplo. Estaria mais de acordo.
Para encerrar, publico só o começo de um longo artigo do grande Gullar publicado na Folha de São Paulo, em 8 de janeiro de 2006:
"Estranhezas
Não lhe parece estranho que o PT, sem dinheiro e endividado, tenha encomendado 2 milhões e 700 mil camisetas para propaganda eleitoral e, ainda por cima, se propunha a construir uma sede nova, oferecendo, só pelo terreno, R$ 15 milhões?
Não lhe parece estranho que a Coteminas, que fez as camisetas, não tenha estranhado um pagamento de R$ 1 milhão feito em dinheiro vivo em vez de cheque? Só faz isso quem pretende ocultar a origem da grana, ou não é?
Não lhe parece estranho que o vice-presidente da República, José Alencar, proprietário da Coteminas, tenha achado natural tal pagamento, alegando que "é legal pagar em dinheiro"?
Não lhe parece estranho que o presidente Lula, ao se referir a mais esse escândalo, tenha dito que a única coisa errada foi o PT ter feito a encomenda e não ter pago? Ou seja, para ele, dinheiro sem origem conhecida é normal?
Não lhe parece estranho que a Receita Federal tenha levado seis meses para pedir informações ao PT sobre suas contas, quando este já havia confessado crime fiscal?
Não lhe parece estranho que o presidente Lula tenha declarado que a oposição a seu governo é golpista, quando, apesar dos escândalos sucessivos, nunca ninguém pediu ao Congresso o seu impeachment? Não lhe parece estranho que Marcos Valério, que armou toda essa falcatrua, queime documentos para impedir as investigações e continue solto por decisão judicial?"
Por favor, respeitem o Fernando Gullar, que termina assim o seu brilhante texto:
"Afinal de contas, este é o novo samba-do-crioulo doido ou a comédia dos caras-de-pau?
Na minha época do Luna Bar, no Leblon, se alguém da turma dos bebuns dizia um disparate, os outros o gozavam:
— Parece que bebe!
É o que dá vontade de dizer deste governo:
— Parece que bebe!"
Escrito por Ilgo Wink às 21h42
[]
[envie esta mensagem]
|