Os fantasmas, Dom Luiz e os pés de Ronaldinho
Ao chegar ontem, dia 15, à redação do CP, mais cedo do que de costume (afinal, tínhamos as edições de sábado e de domingo para editar), meio distraído, quase esbarrei num homem de barba grisalha, bem aparada (tipo a do Lula hoje, não aquela barba de sindicalista dos anos 70).
Nos encontramos na porta vai-e-vem que dá acesso à redação. Nos olhamos rapidamente. Percebi um esboço de sorriso em seus lábios. Já vi esse rosto, pensei. Olhei para trás, mas só dei com o corredor vazio. Pô, caminha rápido esse sujeito, voltei a pensar (tenho pensado muito ultimamente), porque o corredor que leva às escadas é comprido. O cara havia evaporado. Um fantasma?
Há noites, quando a redação começa a ficar vazia, que tenho a sensação de haver mais gente por perto. Talvez o próprio Breno Caldas. Quem sabe o Mário Quintana? No auge do silêncio, é possível ouvir-se o dedilhar de um teclado de Olivetti (pra quem não sabe, é uma marca de máquina de escrever, equipamento pré-histórico que antecedeu ao computador).
Chego ao esporte. O Rafael Peruzzo me pergunta: o Barcelona é o melhor time do mundo, posso escrever isso mesmo? Pensei no Chelsea, no Milan. Não sei, respondi.
Perguntei pro Chico Izidro, especialista em futebol europeu. Chicão, o Barça é o melhor do mundo, ou é exagero?
Sim, responde ele, olhos esbugalhados de pavor. Chico repete que o Barcelona é o melhor do planeta como quem quer se convencer disso, de que não há chance alguma de o Inter ser campeão do Mundo. O Chico, gremistão, está preocupado.
Gosto de desafiar os astros. Eles apontam, segundo o astrólogo Bruno Vasconcellos, que o Inter sairá frustrado do Japão, ou seja, sem o título.
Pois eu que não acho que o Barcelona está com essa bola toda. Não duvido que o Inter vença o jogo deste domingo.
Para isso, terá de jogar muito mais do que jogou contra o time das múmias. E o Inter, nós sabemos, joga mais do que aquilo.
Vejo muitos nomes imponentes no Barcelona. Zambrotta, por exemplo. Não passa de um Ceará com grife. O Deco? Não troco pelo Fernandão. No mais, tirando o RG, está tudo muito equilibrado. E estou falando sério. Até ontem, ainda sob efeitos do show do Barça na partida contra o América, achava quase impossível o Inter vencer.
Hoje, analisando friamente, não acho que o time do Barça seja tão superior. É melhor que o Inter, em nomes, sem dúvida.
O que vai pesar a favor do Inter é outra coisa. Enquanto o Barça pensa em ser campeão dando espetáculo (afinal, é considerado o melhor do mundo e entra em campo convencido disso), o Inter não quer nem saber. É o time menor, o desafiante. O subdesenvolvido que ousa desafiar o Primeiro Mundo.
O Inter será um guerrilheiro, que não irá vacilar em jogar sujo, se for necessário, para conquistar o título mundial.
Entre o futebol de resultado e o de espetáculo, ganha o primeiro. A não ser que o Barça, o que eu duvido, tenha o mesmo comportamento do seu rival e consiga aliar a sua técnica superior ao mesmo empenho que terá o Inter.
O que, aqui entre nós, é quase impossível. Por isso, deve ganhar o Inter. E eu, com meus colegas, vou trabalhar como doido para fazer um caderno especial para a edição de segunda-feira.
Ossos do ofício.
Ah, sobre o sujeito que encontrei. Desconfio que tenha sido o Dom Luiz, que até aonde eu sei já desencarnou.
Sobre a minha mesa havia um envelope azul e dentro um bilhete. Curto e grosso:
“Caro Ilgo, não vou suportar o clube da beira do rio campeão do mundo. É muita dor. Ainda mais batendo o grande Barcelona. Estou tão desesperado que vou torcer por aquele rapazote que traiu o meu Grêmio. Agora, se ele me falhar de novo, acho que vou puxar os pés dele todas as noites. Saudações, Dom Luiz”.
Acho que o RG vai ter os seus pés milionários puxados todas as noites.
Escrito por Ilgo Wink às 14h40
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