A tática do avestruz
O avestruz está na moda. Eu mesmo estou me sentindo um avestruz. Fiquei uma semana sem escrever aqui, não acompanho horário político, não assisto aos debates. Não ligo pras pesquisas. Ou melhor, faço de conta que elas não existem. São como o bicho-papão da minha infância (distante infância). Eu sabia que ele (o bicho-papão) não existia, mas ainda assim tinha medo. Ficava assustado. As pesquisas, que eu finjo não existir, me assustam.
Enfim, aderi à tática do avestruz. Enfiei a cabeça num buraco durante uma semana. Não queria saber de nada.
Tem um sujeito aí, barbudo e com nove dedos, que adotou a tática do avestruz há mais tempo. Sempre que o caldo engrossa, ele enfia a cabeça no buraco, diz que não é com ele, não viu nada, não sabe de nada.
É um avestruz barbudo. Um novo tipo de avestruz. Até agora eram apenas quatro tipos: o de pescoço vermelho, pescoço preto, azul e o híbrido comercial.
Já tínhamos o “sapo barbudo”, expressão utilizada pelo saudoso Leonel Brizola. Agora, tempos o avestruz barbudo.
Dizem que a carne é boa, saudável. Não a do avestruz barbudo, esta causa congestão e outros problemas muito mais graves.
Nesta quinta-feira, dia 18, os jogadores do São Paulo, que se preparam para enfrentar o Grêmio, comeram carne de avestruz. Foi um churrasco. A direção do clube paulista quer introduzir a carne de avestruz no cardápio dos jogadores. Tem menos gordura, menos colesterol, mais proteínas, etc.
Eu não disse que o avestruz está na moda? Sendo moda, é importante que vocês saibam mais sobre o avestruz.
Nosso amigo avestruz ("ostrich" em inglês), cientificamente conhecido como "Strutio Camelus Australis", é originário da África e pertence a família das Ratitas - aves não voadoras. Podem chegar a 2,5m de altura. Desta família também fazem parte a Ema, originária da América do Sul e o Emu, nativo da Austrália. Para surpresa de muitos, embora seja uma ave, o avestruz produz uma deliciosa carne vermelha que possui o sabor muito parecido com o Filet Mignon.
A carne pode ser boa, mas o que menos precisamos agora é adotar a tática do avestruz, fazer de conta que nada está acontecendo, aceitando a mentira, a corrupção, a safadeza, a impunidade. Enfiando a cara num buraco para não saber de nada, como faz hoje grande parte do eleitorado.
Em maio, em seu discurso de posse como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro Marco Aurélio de Mello, já detectava que o avestruz entrava na moda.
Mello disse que o país passa por "tempos muito estranhos" e condenou o que ele chamou de "tática de avestruz", referindo-se aos cidadãos brasileiros que estão cada dia mais apáticos para cobrar soluções e punições. "A rotina de desfaçatez e indignidade parece não ter limites, levando os já conformados cidadãos brasileiros a uma apatia cada vez mais surpreendente, como se tudo fosse muito natural e devesse ser assim mesmo. Há ainda a tática do avestruz: enterrar a cabeça para deixar o vendaval passar”.
E mais:
"Perplexos, percebemos, na simples comparação entre o discurso oficial e as notícias jornalísticas, que o Brasil se tornou um país de faz-de-conta. Faz de conta que não se produziu o maior dos escândalos nacionais, que os culpados nada sabiam - o que lhes daria uma carta de alforria prévia para continuar agindo como se nada de mal tivessem feito. Faz de conta que não foram usadas as mais descaradas falcatruas para desviar milhões de reais, num prejuízo irreversível em país de tantos miseráveis. Faz de conta que tais tipos de abusos não continuam se reproduzindo à plena luz, num desafio cínico à supremacia da lei, cuja observação é tão necessária em momentos conturbados", afirmou o ministro.
Pronto, tirei a cabeça do buraco em plena tempestade.
Escrito por Ilgo Wink às 10h06
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