Em defesa de Brizola
Texto de esclarecimento ao leitor Mateus,que enviou recado no tópico anterior comparando Leonel Brizola a Zé Dirceu (ambos seriam caudilhos), e também a quem interessar possa. Até porque uma inverdade disseminada corre o risco de se tornar “verdade”.
Caudilho, palavra de origem espanhola, é o nome dado inicialmente a líderes que lutaram pela independência de seus países, homens acima de tudo nacionalistas, que enfrentaram a exploração externa.
Juan Manuel Rosas, que foi o grande unificador da Argentina, José Martí, o poeta e escritor que combateu pela independência de Cuba, nos fins do século XIX, ou o originariamente mineiro Augusto César Sandino, que liderou a revolta dos nicaraguenses contra a ocupação dos EUA, são alguns exemplos de caudilhos.
Eram lideranças radicais na defesa de seus ideais nacionalistas.
Leonel Brizola, por sua postura aguerrida (não hesitou em estatizar as empresas de energia elétrica e de telefonia no RGS buscando um serviço de mais qualidade e menos oneroso à população, no começo dos anos 60), foi definido por seus opositores como um caudilho, palavra que tem também um sentido negativo, ligado à ditadura e ao fascismo.
Foi ele, Brizola, como governador, que implantou o primeiro projeto de reforma agrária no Brasil. O único que deu certo e que se mantém até hoje. Foi ele que promoveu uma revolução na Educação no RGS e faria o mesmo no Brasil se não houvesse um sapo barbudo no meio do caminho e, por trás, um bando de intelectuais louquinhos para assumir o Poder.
Mais ainda quando, em 1961, evitou a primeira tentativa de golpe militar contra democracia. É o episódio da Legalidade, que fez com que o vice João Goulart assumisse a presidência no lugar de Jânio Quadros. Quer dizer, Brizola defendeu a democracia. Três anos depois, o golpe abortado em 61 se concretizou.
Brizola foi perseguido pelos militares e fugiu. Sua vida foi devassada. Nada foi encontrado que o incriminasse. Nada de corrupção, ao contrário das pessoas que décadas depois assumiriam o poder com ideais nacionalistas e de confronto com o FMI e à exploração dos banqueiros. Aliás, os nunca ganharam tanto dinheiro como no atual governo .
Anos mais tarde, um conhecido meu, repórter de uma revista de circulação nacional, foi designado para descobrir como Brizola vivia no Uruguai, onde estava exilado. O objetivo era levantar podres contra o “caudilho”, que logo voltaria ao Brasil porque estava em andamento um processo de abertura. Então, lideranças de esquerda (verdadeiramente de esquerda) deveriam ser, digamos, neutralizadas. Algumas, como João Goulart, acabaram morrendo. Outras lideranças contrárias ao regime militar (Lacerda e o ex-presidente JK) também morreram. Mortes que até hoje intrigam pesquisadores e que resultaram num livro.
Voltando ao nosso repórter. Ele só descobriu coisas positivas sobre Brizola, que vivia em harmonia com seus vizinhos uruguaios. A reportagem não saiu. Acho que nem preciso dizer o nome da revista, que está aí até hoje.
O fato é que na ausência de grandes líderes do passado - Brizola voltou e a sua sigla, herança de Getúlio Vargas, lhe foi roubada - abriu-se um terreno fértil para o crescimento de outra liderança, vinda do povo, da classe trabalhadora mais humilde, com respaldo da mídia da direita e de um grupo de intelectuais, gente nascida em berço de ouro, mas sem carisma para conquistar o eleitorado.
Nesse terreno fértil, irrigado por discursos em defesa da ética e de combate à corrupção e ao domínio das elites, cresceu uma erva daninha que se alastrou e que, enfim, tomou conta do Planalto.
Tudo isso pra dizer que a comparação de Zé Dirceu com Brizola é completamente absurda e, mais que isso, ofensiva à memória de um homem digno, não um santo, mas de um homem correto, honesto, que realmente queria o melhor para o Brasil, e que morreu sem nunca ter dormido em lençóis de linho e, principalmente, sem nada que pudesse manchar a sua honra.
Não posso dizer o mesmo da maioria dessa gente que está aí.
Obs: tenho muito a escrever sobre esse tema, mas aí precisaria de pelo menos mais uma 100 páginas.
Escrito por Ilgo Wink às 08h29
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