Muricy, o próprio detalhe
O título da Libertadores vai ser decidido no detalhe.
A afirmação é do técnico Muricy Ramalho, que ontem à noite participou todo faceiro de um programa de TV em São Paulo. Muricy perdeu o ar rabugento que mantinha praticamente todo o tempo em Porto Alegre. Hoje, está em seu meio. Trabalha no clube do seu coração. Está perto da família.
Enfim, Muricy parece ser um homem feliz.
A criminalidade assumindo o controle da cidade, ônibus incendiados, tiroteios. Nada parece incomodar esse revigorado Muricy, que até as rugas perdeu, pelo que percebi entre um close e outro da câmera.
Nem de longe lembra aquele treinador chegando ao Beira-Rio, recém contratado ao Figueirense, há uns três anos. Lembrava um caipira saído do interior paulista pelo seu jeito simples de falar, a língua colada nos erres, objetivo, direto, muito diferente, por exemplo, de um Tite. O modo de se expressar do Muricy levou o colega João Garcia, se não engano, a dizer numa entrevista de boas-vindas ao treinador, pela rádio Guaíba, que ele, Muricy, tinha um jeito “simplório”. Garcia queria ser simpático, elogiando o modo simples e direto do novo técnico colorado. Muricy não gostou de ser taxado de “simplório” e discutiu no ar.
No fim, terminou tudo bem. Entre um conflito e outro com a imprensa e a torcida, Muricy foi mostrando acima de tudo que é um sujeito autêntico. Diz o que pensa e não leva desaforo pra casa. Merece respeito. Mostrou, também, que é competente. Conquistou títulos e acabou levando o Inter à Libertadores. Só não foi campeão brasileiro por causa do tapetão, como vocês sabem.
Muricy construiu a sua história aqui devagarinho. Venceu e perdeu muitos jogos no detalhes.
Na decisão de amanhã, no Morumbi, onde um Muricy cabeludo corria animado lá pelos anos 70 e 80, teremos o criador e a criatura frente a frente. Muricy conhece cada um dos jogadores do Inter. Como dribla, como domina a bola, como gosta de receber a bola, como se posiciona, como foge da marcação, como chuta, com a esquerda, com a direita, ou ambas (sem cair), como cabeceia, como marca, como salta. Qualidades e defeitos. Todos os detalhes.
Claro, os jogadores do Inter sabem todas as manias do Muricy, seus truques e estratégias, como lembrou o amigo Márcio Beyer aqui no blog. Mas, nesse aspecto, a vantagem é do Muricy, o comandante, o pensador, não dos soldados, conforme observou o Marcos Bernardi, no debate acalorado como Márcio no segundo tópico abaixo deste.
Enfim, a Libertadores será mesmo decidida no detalhe.
E Muricy é o detalhe principal.
(Além de ser mais treinador que o Abel, que o Luís Carlos Reche me desculpe.)
Escrito por Ilgo Wink às 09h58
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